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Quando Morre Uma Orquestra

Texto escrito pelo músico Celso G. Loureiro Chaves.

ZH dia 04/03.

Quando morre uma orquestra

A extinção da Orquestra Unisinos, anunciada na calada da noite carnavalesca pela instituição que a mantinha, talvez na esperança de que o repicar dos tamborins calasse qualquer indignação, fez cessar o sentido de uma frase de Erico Verissimo freqüentemente citada. Há quase dez anos, também ao Vale dos Sinos se poderia aplicar o orgulho que, dizia o escritor, ele sentia ao apresentar-se como vindo de um lugar onde havia uma orquestra sinfônica.

Pela duração de um sonho, o Vale dos Sinos também teve sua orquestra sinfônica, também foi motivo de orgulho para os rio-grandenses e para a música brasileira. Não mais. Um golpe certeiro de vandalismo cultural fez morrer uma orquestra e fez com que José Pedro Boéssio, criador, incentivador e primeiro regente da Orquestra Unisinos, sofresse sua segunda morte. A primeira, verões atrás, ele a sofreu num acidente automobilístico. Essa de agora sufocou sua obra, arrasou com um impessoal canetaço administrativo um legado de décadas, construído com o cuidado de quem construísse um castelo de cartas.

Fosse apenas a extinção da Orquestra Unisinos e já seria a coisa suficientemente trágica. Mas com a orquestra foi-se também o Sinos Acorda, projeto extensionista de educação musical para crianças e jovens. As aulas que recomeçariam agora, propiciando o reencontro de pessoas esperançosas e idealistas com vozes e instrumentos já não ocorrerão. Vazias as salas de aula, o Vale dos Sinos silencia em projetos musicais de longo alcance social. A morte da Orquestra Unisinos envergonha o Rio Grande do Sul e empobrece suas manifestações musicais, que já não são tantas. O fim do Sinos Acorda envergonha a instituição que o acolhia, pois queima a ponte que conduz ao futuro, em flagrante contradição com o objetivo maior da educação, o de gerar conhecimento e de garantir condições humanas às gerações vindouras.

Tudo se foi, sem que conste um único esforço para a reestruturação dos projetos culturais e extensionistas, reestruturação em tudo possível se houvesse paciência e vontade política. Tudo se foi, passando um atestado de absoluta incapacidade para a captação de recursos, mesmo quando estes recursos estavam à porta da instituição. A manutenção de um movimento coral institucional, sabe-se lá até quando, é paliativo inócuo para os muitos males dessa terra arrasada cultural.

E os instrumentos de orquestra recém adquiridos, os violinos doados, onde ficarão? Ficarão mofando em algum armário da burocracia universitária, numa afronta ao uso que deles faria um músico? O que farão os pais que, para além de suas poucas posses, compraram instrumentos para seus filhos, alunos do Sinos Acorda, num investimento que antes de ser monetário foi amoroso? O que farão essas crianças que amavam a música e animavam um antigo casarão do centro de São Leopoldo com suas vozes e instrumentos em diferentes graus de proficiência? O argumento de que os fundos investidos na Orquestra Unisinos drenavam os recursos necessários à instituição que a mantinha para o ensino de graduação e pós-graduação empalidece diante de umas poucas indagações. Mais ainda, esquece-se a instituição que oferece tal argumento de que a universidade brasileira repousa sobre o tripé ensino - pesquisa - extensão.

Fechada a porta da extensão musical, a instituição se fecha ainda mais em si mesma, atende as urgências do presente e, como a cigarra da fábula, deixa de garantir seu próprio futuro. Não se fala sempre que o futuro do Brasil está na educação? Pois há quem não veja tão longe. E, como às vezes se pensa que a música não faz parte da construção do pensamento social brasileiro, houve aqui a ilusão enganosa e cruel de que, abrindo-se mão dela, de muito pouco se sentirá falta.

A Orquestra Unisinos foi um sonho cujo final, de tão abrupto, mais se aproxima da crueza shakespereana do que da compaixão cristã. Ora, há séculos, o dramaturgo Calderón de la Barca disse: a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são. Mas ele nada disse sobre esses sonhos que se adensam e se transformam em pesadelo: o feio pesadelo do desemprego, o feio pesadelo de crianças e jovens subitamente desassistidos na sua educação musical, o feio pesadelo da música calada. É bem assim que os sonhos se dissolvem. Com eles vai-se uma das nossas orquestras mais criativas em competência e repertório, vai-se mais um pouco da cultura do Rio Grande do Sul. A surpresa de uma morte não anunciada e a imprevista imagem de uma Orquestra Unisinos emudecida não permitem sentir o prazer de algum sonho realizado, só nos concedem o gosto amargo da indignação, da desilusão e da desesperança.

Maira.


Comments:

Cesar — 09 March 2006, 16:27

Maira e demais, no ano passado quase que vimos este filme bem próximo de nós ou melhor dizendo quase protagonizamos esta triste história de terror !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Não ao abate da cultura





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